Psicologia
Focalização

Focusing e a vida espiritual

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Muitas pessoas envolvidas com a Focalização são entusiasticamente interessadas no Budismo e em outros caminhos espirituais. E não admira. Tanto o Focusing quanto o Budismo tratam do tema de estarmos presentes em nossa vida da forma como a sentimos agora. Ambos se interessam em trazer cuidado e compaixão à nossa experiência do momento. Ambos se direcionam à redução da angústia humana – não nos desviando dos sentimentos, mas acolhendo-os justo como eles são. Ambos nos encorajam a confiar na sabedoria da nossa experiência, mais do que na autoridade externa a nos dizer o que é verdadeiro ou correto. O Budismo e outros caminhos espirituais são frequentemente mal compreendidos como caminhos de transcendência que deixam para trás o que for pessoal e confluem para dentro de um estado nirvânico que nos transporta para além do cotidiano e ordinário estado de coisas. Mas, como o professor de meditação Jack Kornfield colocou, após o estado de êxtase há a lavagem de roupa. Há a vida do dia a dia e a relação com os outros, bem como a relação com a nossa própria vida, nossas necessidades e carências. Uma vida espiritual genuína nos ajuda a nos movermos além de nós mesmos. Nós nos tornamos curiosos a respeito das experiências dos outros e queremos que eles sejam felizes, da mesma forma que buscamos a felicidade para nós mesmos. Nós nos tornamos disponíveis para nos conectarmos com os outros – desfrutando de qualquer intimidade que seja seguramente disponível com aqueles que encontramos e com aqueles cujas vidas nós tocamos. Nós nos tornamos mais gentis com os outros, reconhecendo que somos todos parte da condição humana. Não podemos estar presentes e disponíveis para os outros se estamos distraídos por estados emocionais não-resolvidos ou se tentamos empurrá-los pra longe. Se feridas não curadas nos levam a estar emocionalmente reativados quando testemunhamos a dor, o medo ou outros sentimentos das pessoas, podemos ser consumidos por nosso próprio distúrbio, mais do que estar presentes com elas. Se um sócio ou amigo tem uma questão conosco, podemos escutá-los sem ficar tão reativados ou defensivos se formos capazes de permanecer em nossos corpos e de confiar em que podemos acolher qualquer feltsense que possa surgir através da interação. Se estamos tumultuados por nossas dores ou ansiedades pessoais, não podemos ver claramente as necessidades dos outros; nem podemos nos estender facilmente para dentro do seu mundo. Muitos praticantes de meditação foram ensinados a lidar com os sentimentos deixando-os ir ou não se atendo(apegando) a eles. Isso pode levar ao resultado indesejável de termos aversão à nossa vida de sentimentos – vendo-os como algo a superar e não acolher. A Focalização pode ajudar os meditadores a afiar a sua compreensão de que sentimentos são uma parte essencial de qualquer prática de mindfulness. Precisamos deixá-los ser e não deixá-los ir. Precisamos cultivar uma atitude de permitir, não de aliviar ou consertar. Não ver os sentimentos como um inimigo, mas como uma entrada para algo mais profundo. Nós tocamos a textura mais rica de nós mesmos ou da própria vida. A sabedoria pode fluir desse ficar com o nosso felt sense das preocupações da vida. Quando aprendemos a acolher nossos sentimentos de uma forma gentil e amável, esses sentimentos têm a chance de mudar, se abrir, se transformar. Nós desenvolvemos mais empatia e compaixão pelos outros na medida em que acolhemos amavelmente os nossos estados emocionais sempre em mudança. Quando encontramos algum espaço entre nós mesmos e as nossas usuais auto-preocupações (conosco mesmo), somos mais livres para acolher as dores dos outros. Nós podemos mais prontamente estar (presentes) para as pessoas se aprendermos como segurar nossos próprios sentimentos e questões com amabilidade, leveza e graça. Dessa forma, a Focalização nos ajuda a amar mais inteira e profundamente e nos move em direção a um caminho de vida espiritual mais rico e mais sólido. A Focalização nos ajuda a nos tornarmos mais presentes para os outros, por oferecer a prática através da qual nos tornamos mais disponíveis para nós mesmos. Essa capacidade crucial de auto-acolhimento é uma habilidade essencial para relações amorosas e para uma vida espiritual autêntica. Ao acolher nossos próprios sentimentos de uma forma gentil e cuidadosa, ficamos próximos de nós mesmos. Desenvolvemos equanimidade. Somos emocionalmente e espiritualmente disponíveis para responder compassivamente e nos conectarmos com os outros quando desenvolvemos esse refúgio seguro dentro de nós mesmos. John Amodeo, PhD, é psicoterapeuta e autor de The Authentic Heart (O Coração Autêntico) e de Love&Betrayal (Amor e Traição), co-autor de Being Intimate (Sendo Íntimo). É Focusing trainer e coordenador do projeto Focusing e Budismo do Focusing Institute. E-mail: johnamodeo@aol.com